Pesquisa da Funatura liga três parques nacionais e combina monitoramento de fauna com agrofloresta em assentamentos de reforma agrária
No Vão do Paranã, região do nordeste de Goiás que abriga o maior contínuo de Cerrado preservado do estado, o projeto “Onde a onça bebe água”, da Funatura, mapeia corredores ecológicos para a onça-pintada entre o Parque Nacional de Brasília, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Coordenado pela ecóloga colombiana Samantha Rincón, o projeto instalou 76 armadilhas fotográficas em 2025 e já registrou a espécie em 25 localidades, com 52 registros em câmeras-trap e 17 por rastreamento de sinais como pegadas e fezes.
A onça-pintada já perdeu quase metade de sua área de distribuição original nas Américas e, embora a União Internacional para a Conservação da Natureza a classifique globalmente como “quase ameaçada”, a situação é mais grave em biomas como Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga. A consultora ambiental Lauana Costa Nogueira, ex-servidora do ICMBio em Mambaí, explica que a região do Vão do Paranã combina matas secas, afloramentos calcários, cavernas e rios como o Vermelho e o Corrente, condições essenciais para o predador. Segundo ela, a onça atua como espécie guarda-chuva: sem o felino no topo da cadeia, animais como capivaras, catetos e javaporcos se multiplicam e causam prejuízo às próprias lavouras da região.
O projeto também implementou 46 sistemas agroflorestais em propriedades de reforma agrária nos municípios de abrangência, buscando gerar confiança e benefício concreto para moradores. É o caso do agricultor Arnaldo Vieira da Costa, do Assentamento Vale da Esperança em Formosa (GO), que batizou seu sistema agroflorestal de SAF Joaquim Pindoba em homenagem ao pai e hoje vende excedentes de abóbora e batata-doce ao Programa de Aquisição de Alimentos. Das 46 agroflorestas implantadas, 37 já abastecem o consumo das próprias famílias. Mas a crise climática ameaça os resultados: Joana D’arc Inácio Severino da Conceição, moradora do Projeto de Assentamento Riachão há 33 anos, relata que o rio que dá nome ao assentamento está seco há seis meses, após duas décadas de avanço do agronegócio de monocultura que drenou nascentes e desmatou vegetação protetora. Dados da iniciativa DoClima apontam que o município de Sítio D’Abadia, onde ela vive, registrou em 2025 volume de chuva 41% abaixo da média histórica.
O monitoramento enfrenta ainda resistência de proprietários rurais. Pesquisadores relatam terem ouvido de um fazendeiro que ele “preferia tratar com traficantes a tratar com ambientalistas”, além de episódios de expulsão e truculência contra equipes identificadas. No ano passado, sete das 70 câmeras do projeto desapareceram, provavelmente furtadas por caçadores temerosos de serem flagrados, o que representa perda de meses de dados sobre a movimentação da fauna.
Apesar dos obstáculos, os dados reunidos já permitem identificar o mesmo indivíduo de onça-pintada circulando por localidades diferentes, o que subsidiará artigos científicos e o refinamento das rotas de conectividade entre as unidades de conservação do Cerrado goiano.
Fonte: ((o))eco
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de ((o))eco e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

