Revista de jornalismo investigativo indígena Santa Maria (RS)
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A dor dos povos não é trend

Nesta reportagem

Palavra da Revista Caipora – Etnomídia Indígena Insurgente

Aos povos indígenas do Brasil e de Abya Yala.

Aos parentes que comunicam desde o território.

Às organizações de base, à APIB e às suas sete regionais.

A quem nos lê de longe e quer caminhar perto.

Irmãos e irmãs, parentes:

A luta tem casa.

Não mora num perfil. Não mora num número de seguidores. Mora no chão vermelho das aldeias, no barraco de lona da retomada, na roda de Toré, no conselho dos mais velhos, na assembleia que vara a madrugada até a palavra virar decisão. A luta tem casa, e a casa tem dono, e o dono é o povo.

Escutem.

Antes da internet, já falávamos. Falávamos com o maracá e com o jenipapo, com a flecha e com o silêncio. Quando nos tiraram a língua, falamos com os olhos. Quando nos tiraram a terra, falamos com os pés, voltando. Quando nos tiraram o nome, inventamos o jornal: os Kaingang, os Xokleng e os Guarani fizeram o Luta Indígena nos anos da ditadura; Ailton Krenak e os parentes puseram o Programa de Índio no rádio. Ninguém ali falava sozinho. Falava-se porque o povo mandava falar.

Esse é o nosso modo: mandar obedecendo. Quem fala pelos povos fala porque foi enviado, e volta para prestar contas. Quem fala sem ter sido enviado, e não volta, fala apenas por si.

A dor não é vitrine

Agora a dor dos nossos parentes dá audiência.

O fogo nas terras Mura dá audiência. A bala contra os Guarani e Kaiowá dá audiência. O choro de uma mãe no velatório dá audiência. E onde a dor dá audiência, chegam os que querem colher sem ter plantado.

Não vamos julgar o sangue de ninguém pela tela. Pertencimento não se prova com cocar de filtro: se reconhece no território, pelo povo, pelas lideranças. Mas vamos dizer o nome da prática, porque o silêncio também é cúmplice.

Chama-se apropriação. É tomar a pauta indígena como quem toma terra alheia: sem pedir licença, sem consultar, sem devolver. É cercar a nossa palavra e cobrar pedágio para passar. É o velho colonizador com celular novo. Durante quinhentos anos falaram por nós, nos pintaram de índio genérico, de fantasia, de figurinha de livro, de bicho de zoológico. Hoje há quem nos transforme em conteúdo. Muda o meio. Não muda o gesto.

E quando a dor vira PIX, cuidado redobrado. A APIB já avisou: desconfiem de pedidos de dinheiro que não passam pelas organizações que os povos reconhecem. Quem quer ajudar um povo chega até ele pela porta da frente, e presta contas de cada real.

Os que comunicam desde abaixo

Enquanto uns contam curtidas, outros contam os mortos para que não sejam esquecidos.

Há parentes que comunicam todos os dias desde o fundo da mata e da periferia das cidades. Que gravam com o celular emprestado e o sinal que cai. Que sobem o morro para mandar o vídeo da retomada atacada. Que recebem ameaça por telefone e continuam. Que não ganham nada e respondem por tudo diante da sua gente. Os comunicadores indígenas das aldeias, das retomadas, das associações, das rádios comunitárias, dos coletivos de jovens: são eles que garantem que o território fale com a própria boca.

A Caipora é uma entre essas vozes, e não quer ser mais que isso. Nascemos encantada da mata, guardiã da floresta, e assim seguimos: checando antes de publicar, ouvindo lideranças antes de expor uma comunidade, calando o que pode pôr um parente em risco, mesmo quando calar custa audiência. Não somos marca. Somos nó numa rede. E não chegamos ontem: a nossa palavra já estava escrita, território por território, muito antes de qualquer trend.

Para nós, comunicar é fazer território. E território não se vende, não se aluga, não se monetiza.

A palavra que já dissemos

Que ninguém diga que a Caipora descobriu agora a dor dos povos. Nós a escrevemos antes, com nome, com povo e com chão. Escutem o que já dissemos.

Dissemos, em Mato Grosso do Sul, que o tekoha dos Guarani e Kaiowá foi cercado durante um século de confinamento, que a soja e o agrotóxico chegam até a porta da casa de reza em Terra, veneno e a luta pela existência Guarani e Kaiowá, e que depois da eleição vieram veneno, assassinatos e violência.

Dissemos, na Amazônia, que a terra Yanomami sangrou com o garimpo em Urihi ferida, que em Roraima o voto e a cerca andam juntos em Ouro, soja e cercas, que o fogo e a grilagem avançam sobre o Norte em Fogo, grilagem e invasões na Amazônia, e que os Mura, os Sateré-Mawé e os Parakanã respiraram as cinzas em A estação da fumaça.

Dissemos, no Sul, que os Xokleng derrubaram o marco temporal e ainda esperam a própria terra em Rio acima, que ficaram ilhados pela barragem sem socorro do Estado, que o mito gaúcho foi erguido sobre o extermínio Guarani e Kaingang e sobre o sangue Guarani das Missões, que os Mbya Guarani defendem a água sagrada contra o aterro de Viamão, e que os Avá-Guarani carregam a memória submersa por Itaipu.

Dissemos, no Nordeste e no Leste, que os povos do Ceará foram declarados extintos e seguem de pé, que os Xukuru enfrentam a guerra dos mosquitos, que os Pataxó resistem à milícia “Invasão Zero” e à engrenagem que tenta engolir a Aldeia Velha, e que os Krenak choram o rio Doce que morreu e lutam contra o esquecimento do genocídio.

E dissemos, para o país inteiro, como a máquina funciona: como a lei tornou o indígena um estranho na própria terra, como o serviço que inventou o “índio” deixou um legado de violência no Sul, como o marco temporal mói a história, como o PDL 717 tenta desmontar a demarcação, como a escravidão indígena move o agronegócio e como o Estado espiona os nossos povos.

Não escrevemos isso para colecionar seguidores. Escrevemos para que a terra lembre, para que a Justiça não finja que não sabia e para que os nossos mortos não fiquem sem nome.

O que dizemos

Dizemos que estamos com a APIB, com suas regionais de base e com os parentes comunicadores que levantaram a voz nesta semana.

Dizemos que os criadores e organizadores da tal página criada, se são aliados reais dos povos, devem entregar os acessos para a APIB que tem legitimidade e responsabilidade com os territórios.

Dizemos que nenhuma mobilização em nome dos povos indígenas é legítima se for feita às costas do movimento indígena organizado.

Dizemos que a nossa dor não é trend, nem matéria-prima, nem trampolim. É memória. É luto. É luta.

Dizemos aos aliados de verdade: a sua tarefa não é falar no nosso lugar. É abrir caminho para que a gente fale. Amplifiquem as nossas organizações, e não os seus perfis.

Dizemos aos que chegaram ontem e já querem falar por todos: a floresta tem ouvido e tem memória. Ela sabe quem a defende e quem a usa.

E dizemos a nós mesmos, parentes: não nos dividam. A unidade do movimento é a nossa flecha mais afiada.

Palavra final

Não pedimos licença para existir. Não pedimos permissão para falar. Não aceitamos tutela, nem a antiga nem a nova.

Viemos de antes do Brasil, e estaremos aqui depois de cada moda. A trend passa. A terra fica. O povo fica.

Nunca mais uma história nossa sem nós.

Pela demarcação já. Pela palavra livre dos territórios. Pela comunicação que obedece ao povo.

Desde as matas, as aldeias e as retomadas do Brasil,

Revista Caipora – Etnomídia Indígena Insurgente

31 de outubro de 2026

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